segunda-feira, 7 de maio de 2012

Conferência Internacional de Saúde Quântica


Parabéns a toda equipe que participou da Conferência Internacional de Saúde Quântica! Grandes mestres dando lindos exemplos de que a cura está dentro de nós. Foi muito falado sobre as medicinas milenares que são as medicinas realmente verdadeiras que enxergam o ser humano de forma integral, que não tratam somente os sintomas, mas sim a causa dos disturbios. Veja como foi a programação:

http://www.cisqrs.com.br/programacao.php

Muita força para todos nós!

Namastê

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Yoga e a Saúde Feminina




“Saúdo-vos, ó Deusa, vós que dissipais os grandes temores, eliminais as grandes dificuldades e tendes a essência da grande compaixão.” Devi-Upanishad (25)

Este sutra, encontrado no Devi-Upanishad, nos revela a idéia geral que se faz do feminino, energia acolhedora, restauradora, compreensiva e amorosa. A mulher alude à Devi (do sânscrito, resplandecente), o aspecto generoso de Deus. Canções e orações são oferecidas à Ela em todas as tradições religiosas, onde se espera que Ela, nossa mãe, nos conduza gentilmente pela mão, enquanto percorremos os caminhos mais obscuros do universo.

Porém, por trás de tudo isso, sabemos que nós, mulheres que aqui vivemos, estamos muito atrás destas mães divinas à quem constantemente recorremos. É preciso despender de muita atitude e energia para mantermo-nos firmes em nossos papéis, o que, muitas vezes, acaba por nos levar a um confronto com a nossa própria identidade.

O primeiro passo que podemos dar para que tenhamos uma relação mais amigável com nós mesmas é o cuidado com a saúde. A saúde da mulher é tal qual um livro aberto, mas é preciso entender seus sinais para poder compreendê-lo. Esses sinais são especialmente revelados durante o ciclo menstrual, período em que o corpo e a mente revelam seu estado atual sem reservas.
O Ayurveda, ramo medicinal do Yoga, afirma que num intervalo de 25 a 35 dias o corpo feminino entra num processo de limpeza, recolhendo e expelindo as toxinas (ama) que se acumularam no organismo desde seu último ciclo menstrual. Este ama pode advir da má alimentação (junk food e refeições irregulares), emoções reprimidas, focos de tensão ou sono irregular. Se, durante o período que separa uma menstruação da outra a mulher mantiver bons hábitos, o que se resume em horários regulares de repouso, refeições bem definidas, prática de exercícios físicos e bom trabalho emocional, seu organismo não terá dificuldade em recolher as poucas toxinas que nele se acumularam e expeli-las. No entanto, se os hábitos tomarem rumos contrários, o ciclo menstrual irá refletir em dores, mudanças psicológicas bruscas, fluxo intenso (menorragia) ou fluxo contido (amenorréia).

Cerca de 90% das mulheres apresentam desconfortos pré-menstruais de ordem variável, algo que abrange mais de 150 sintomas. Estes desconfortos tomam parte por conta do ritmo de vida anti-natural que temos adotado hoje em dia, levando-nos do extremo stress à extrema inércia em poucos instantes. Respeitar o bioritmo físico e mental é a chave para a boa gestão e compreensão de si mesma, bem como a inserção de hábitos diários que se mostrem de acordo com as nossas possibilidades.

Esta re-adequação ao Eu pode começar pelas atitudes mais simples do dia-a-dia, se apenas tomarmos consciência dos nossos atos. Evitar situações insatisfatórias para nós mesmas advém de um longo estudo do nosso próprio comportamento perante elas, o que nos permite obter um mapa detalhado sobre o nosso comportamento e a forma de conduzi-lo, a fim de evitar situações que não condizem com nossa capacidade de gestão.

A prática de asanas também deve sofrer adaptações, que serão listadas aqui. Por conta do mesmo princípio citado anteriormente, deve-se evitar praticar asanas no primeiro dia da atividade menstrual. Se a disposição ainda assim permanecer debilitada, deve-se iniciar a prática a partir do terceiro dia, ou não praticar durante este período. No entanto, existem asanas extremamente benéficos para os distúrbios causados pelo ciclo menstrual, assim como práticas meditativas que irão atuar diretamente nas glândulas responsáveis por este movimento.

É importante que a prática não provoque fadiga ou comprima os órgãos abdominais e reprodutores. Da mesma forma, deve-se concentrar em criar espaço entre a caixa torácica e o abdôme, otimizando assim o fluxo da corrente sanguínea e permitindo que o ama seja recolhido mais facilmente. Não se deve procurar aprofundar ou aperfeiçoar a prática de asanas, mas sim buscar o máximo relaxamento em cada postura.

Nenhuma postura invertida deve ser praticada durante a menstruação, pois, segundo o Ayurveda, estas posturas restringem e confundem o movimento natural de expulsão do apana vayu, ar vital responsável pela eliminação de resíduos do corpo. Invertidas praticadas fora deste período atuarão diretamente nas glândulas responsáveis pela atividade menstrual, sendo necessárias para a boa manutenção endócrina.

Torções devem ser evitadas ou não acentuadas, por conta do princípio de não-compressão dos órgãos abdominais citado acima. No entanto, estas mesmas torções são extremamente favoráveis no período pré e pós-menstrual, pois atua de forma a regularizar o fluxo menstrual posterior.

Posturas feitas em pé devem ser suavizadas ou evitadas, com exceção à prática de:
ardha chandrasana
que atua na abertura da região pélvica e otimiza a circulação e expulsão sanguínea. Da mesma forma, posturas que trabalham com a abertura das virilhas e região pélvica são especialmente benéficas, se praticadas sem tensão. Entre elas estão:
baddha konasana
 upavishta konasana
supta baddha konasana
prasarita padotanasana
supta padangustasana

Flexões e posturas que projetam o peito são especialmente úteis no controle das oscilações temperamentais experimentadas durante o período pré-menstrual, pois atuam de forma relaxante no sistema nervoso, diminuindo de forma significante a fadiga e as perturbações mentais que vierem a surgir.

A prática regular de asanas é extremamente importante para a regularização e boa gestão do ciclo menstrual. Ela atua diretamente no sistema endócrino, conferindo boa produção hormonal; no sistema nervoso, atenuando as nuances emocionais e psicológicas e na circulação sanguínea, facilitando o recolhimento e expulsão de toxinas.

Um ciclo menstrual regular é o reflexo de uma boa saúde, e constitui a chave para a compreensão do nosso corpo, e do que há além dele.

SPARROWE, Patricia. Yoga para a Saúde do Ciclo Menstrual. São Paulo: Pensamento, 2006.
LAD, Dr. Vasant. Ayurveda – A Ciência da Autocura. São Paulo: Ground, 1997.

sábado, 14 de abril de 2012

O impacto da meditação no tratamento do câncer



A meditação tem origem obscura. Entretanto, os mais antigos textos médicos conhecidos, escritos há cerca de 1000 anos antes de Cristo, referentes à medicina ayurvédica indiana, já incluíam a prática de meditação como um procedimento valioso para a manutenção e a recuperação da saúde. Nos últimos 35 anos, a meditação passou a ser crescentemente adotada no ocidente como método terapêutico complementar, o que despertou o interesse da comunidade científica, que já divulgou os resultados de suas pesquisas em mais de 1600 publicações. Atualmente, a prática de meditação é utilizada rotineiramente como terapia complementar em centenas de centros médicos, inclusive naqueles associados às mais prestigiosas universidades do mundo como Harvard e Oxford.

Mas o que é meditação? O fluxo constante e caótico de pensamentos em nossa mente impede que nos concentremos naqueles que são mais importantes, ou seja, compromete nossa atenção e concentração, além de causar intenso cansaço mental e gerar ansiedade e frustração, porque não conseguimos achar as soluções necessárias, já que novos pensamentos surgem continuadamente atropelando os anteriores. A consequente exaustão mental, que evolui para a exaustão física, associadas à ansiedade e ao sentimento de frustração, acabam por comprometer os sistemas de defesa do organismo e tornar o indivíduo suscetível a uma grande variedade de doenças. Esta sequência de eventos danosos à saúde pode ser revertida pela meditação. Meditar consiste em focalizar a mente, o que leva a um estado de relaxamento mental e físico que, por sua vez, facilita alcançar um estado de grande serenidade, que induz ao estado meditativo. Neste, perde-se a noção de tempo, espaço e corporeidade, a consciência se expande e advém um estado de profunda paz. Essas sensações de serenidade e paz, entre outras emoções positivas induzidas pela meditação, exercem impacto altamente benéfico sobre o sistema imunoneuroendócrino, capaz de concorrer, de maneira decisiva, para a manutenção e recuperação da saúde.

São várias as doenças em que a meditação exerce um efeito positivo nas pessoas, entre elas o câncer. Células mutantes, com potencialidade para se transformar em células cancerígenas, surgem diariamente em nosso organismo, mas são eliminadas por nossos mecanismos de defesa, principalmente aqueles associados ao sistema imunitário. As células imunitárias têm capacidade de detectar e destruir as células mutantes e, desta maneira, impedem o aparecimento do câncer. Além disso, mesmo após o estabelecimento do câncer e, eventualmente de metástases, as células tumorais continuam sendo monitoradas e podem ser eliminadas pelo sistema imunitário. Acontece que as emoções negativas, como ansiedade, tristeza, mágoa, ressentimento, culpa e medo, bloqueiam o sistema imunitário, tornando-nos suscetíveis a doenças, inclusive o câncer. A meditação tem a capacidade de transformar as emoções negativas em positivas, tornando as pessoas mais serenas, intuitivas, sensíveis, amorosas e felizes. Tais emoções positivas alimentam o sistema imunitário, que passa a exercer sua função protetora de maneira eficiente, evitando o adoecimento e mesmo fazendo reverter doenças já estabelecidas.

Este efeito, aparentemente milagroso, tem recebido o embasamento teórico e experimental da nova ciência da psiconeuroendocrinoimunologia, que estuda os efeitos das emoções sobre os sistemas de defesa do organismo. Parte da atividade benéfica da meditação em pessoas com câncer deve-se à redução do tônus simpático, associado à ansiedade, e aumento da atividade parassimpática, associada à tranqüilidade, além de aumento do hormônio melatonina, que apresenta atividades estimuladora do sistema imunitário, antitumoral e bloqueadora do efeito imunodepressor da ansiedade.

Por:
Eduardo Tostae, Médico, pesquisador e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, e
Juarez Castellar, Médico e doutorando do Programa de Ciências Médicas, Faculdade de Medicina, UnB

domingo, 1 de abril de 2012

Ciência comprova efeito da massagem‏

Pesquisadores do Canadá encontraram uma explicação científica em nível celular para a eficácia da massagem no alívio da dor e na recuperação muscular.


 A eficácia da massagem contra a dor tem agora base científica: os benefícios da técnica estão associados a ‘ligar’ e ‘desligar’ genes.

Massagistas agora poderão dizer, com base científica, por que a atividade que exercem funciona no alívio da dor e na recuperação muscular. E isso tem a ver com ‘ligar’ e ‘desligar’ genes, segundo estudo.
Parte dos profissionais de saúde vê a massagem com ceticismo – afinal, qual a base científica para os tais benefícios relatados? Porém, não faltam relatos sobre os benefícios e a eficácia da técnica em sua ação contra a dor.
Agora, veio a público o que parece ser a primeira explicação científica em nível celular para a massagem. E a história das razões do estudo – relatada pelo serviço noticiosoScienceNow (01/02/12) – começa quando Mark Tarnopolsky, da Universidade McMaster (Canadá), passou a se submeter a massagens por indicação médica, depois de acidente esportivo.

Veio a público o que parece ser a primeira explicação científica em nível celular para a massagem

O fato de as sessões trazerem alívio para a dor chamou a atenção do pesquisador. Haveria base celular para o que ele sentia? Tanopolsky, coincidentemente, trabalha com metabolismo celular.
O cientista reuniu colegas e decidiu investigar. Arrebanharam-se 11 jovens, submetidos a exercícios extenuantes. Dez minutos depois da prática esportiva (pedalar), uma das pernas foi submetida a massagem.
Os pesquisadores colheram amostras do quadríceps (músculo da parte anterior da coxa) das duas pernas em três ocasiões: antes do exercício, 10 minutos depois e 3h mais tarde.
Primeiramente, eles constataram o que já se sabia: depois do exercício, as células apresentam mais evidências de inflamação e de sinais de autorreparo dos danos do que antes.
A surpresa veio quando se analisaram as células do tecido massageado: elas tinham 30% a mais de genes reparadores envolvidos no processo de transformar nutrientes em energia, bem como 300% menos de proteínas que ‘ligam’ genes envolvidos na inflamação.
Simplificadamente: os genes reparadores estavam ‘ligados’ e os relacionados à inflamação ‘desligados’.
Quanto à crença de que a massagem difunde, para outras regiões, o ácido lático do músculo dolorido, a equipe não achou evidências – esse, até agora, era o argumento ‘científico’ mais usado para justificar os efeitos da massagem.
O estudo foi publicado on-line na revista Science Translational Medicine.

Cássio Leite Vieira

Ciência Hoje/ RJ
Texto originalmente publicado na CH 290 (março de 2012).

sábado, 24 de março de 2012

Yama: viver com a verdadeira ética




Não é pelo condicionamento externo que absorvemos a verdadeira ética. A bondade inata de um cavalo ou cachorro, por exemplo, provém de sua natureza, embora sejam necessários certo treinamento e orientação, especialmente quando são jovens. A moralidade a e ética têm origem no interior do ser humano e são um reflexo de sua consciência. No entanto, são distorcidas ao entrar em contato com a sociedade. Essa distorção perturba a consciência (citta) e também o estado mental consciente (antahkarana) - que reside perto da Alma e recebe o mundo como uma unidade, não uma batalha pela sobrevivência em meio aos aspectos mais brutos da nossa natureza.

A ioga nos exercita a manter-nos longe de motivações egoístas e grosseiras e mostra como cumprir nossas responsabilidades. É como um eixo a partir do qual nos educamos para realizar uma transformação interna, trocando os prazeres comodistas pela emancipação, a servidão pelo mundo de liberdade do Eu, a evolução rumo ao poder do conhecimento pela involução rumo à sabedoria do coração e da Alma.

Esse esforço de se aprimorar é o início da verdadeira religiosidade e o fim da religião como seita ou um rígido padrão de crença. Espiritualidade não é encenar o papel de sermos sagrados, mas a paixão e o anseio internos de auto-realização e a necessidade de encontrar o derradeiro propósito da existência. 

Yama é cultivar o comedimento. Por meio dos princípios do yama, Patanjali mostrou como superar nossas fraquezas psicológicas e emocionais. Yama também significa "Deus da morte". Se não seguimos os princípios do yama, agimos deliberadamente como assassinos da Alma. Quando somos iniciantes, só podemos tentar controlar maus hábitos; porém, com o passar do tempo, os ditames do yama tornam-se impulsos do coração.

O primeiro preceito do yama é a não-agressão, a não-violência (ahimsa); o segundo é a verdade (satya). Apresento-os juntos porque eles demonstram que qualquer pétala aperfeiçoada da ioga modifica o todo. A ioga é uma só, esteja você fazendo a postura do triângulo (Trikonasana) ou dizendo a verdade. Gandhi, o grande homem do século XX, libertou a Índia e mudou o mundo graças a sua perfeição nas duas pétalas: a não-violência e a verdade. Sua não-violência desarmou o poder opressor dos britânicos e também a raiva inerente e a violência contida da população indiana subjugada. Ele conseguiu isso porque suas palavras e ações estavam calcadas na verdade. A verdade é de poder tremendo. Os vedas dizem que nada que não se baseie na verdade pode frutificar ou trazer bons resultados. A verdade é a Alma em comunicação com o estado consciente. Se este transmite a percepção à consciência e então converte tal percepção em ação, é como se nossos atos se tornassem divididos, porque não há interrupção ente o que a Alma vê e os atos que ela realiza.

Gandhi atingiu este ponto e comprovou sua magnífica eficácia. Mas, é claro, a maioria de nós luta num mundo de relatividade, de concessões, de auto-engano e sutil evasão. À medida que a prática da ioga avança e as aflições e os obstáculos a ela passam a ter menos efeito sobre nós, começamos a vislumbrar a glória da verdade. A ignomínia da violência, de fazer mal aos outros, é uma ofensa contra a Unidade fundamental e, portanto, um crime contra a verdade. Cabe observar, contudo, que a extrema austeridade de Gandhi, como seus jejuns prolongados, eram uma forma de violência (himsa) contra si mesmo, pela qual ele chamou a atenção do mundo para o que as pessoas estava fazendo umas as outras.

São muitos os homens e mulheres santos que vieram para nos lembrar que, apesar da nossa diversidade, compartilhamos a unidade. Ramanujacharya, que viveu entre os séculos X e XI e foi um grande devoto de Visnhu, convocou os seres humanos, a despeito das fronteiras de cor, raça, sexo ou casta, a experimentar a divindade, iniciando-os com o bija mantra: "Aum Namo Narayana". Essa "prece-semente", aparentemente simples, acabava com a divisão entre as pessoas ao torná-las conscientes de que todos têm a mesma relação com Deus. Ela significa simplesmente: "Abençoado seja o Senhor Narayana" (um dos nomes de Deus). Séculos depois, foi Mahatma Gandhi que uniu a Índia numa só raça humana ao praticar a verdade e a não-violência, as duas subpétalas do yama da ioga.

Não devemos usar a verdade como uma clava para agredir as outras pessoas. A moral não consiste em olhar para os outros e considerá-los inferiores a nós. A verdade precisa ser temperada com a amabilidade social. Somos todos culpados por elogiar alguém que está evidentemente orgulhoso de sua roupa nova. Se tivéssemos atingido a verdade absoluta, talvez não fizéssemos isso, mas, num mundo relativo, do qual somos observadores imperfeitos, às vezes fazemos concessões. Uma aluna minha de longa data, sem jamais mentir, sempre busca as qualidades positivas das pessoas que ela conhece e tenta ver o lado humano de seus defeitos. Essa compreensão se deve ao fato de ela saber que já teve muitos defeitos, razão por que compadece dos que ainda estão se esforçando. Assim, ela enfatiza o potencial positivo das pessoas, em vez de humilhá-las por suas capacidades negativas inerentes. Chame isso de olhar o lado luminoso, se preferir, mas seja como for, essa conduta nos ajuda a extrair o melhor dos outros. A verdade não é uma arma da qual se pode abusar, e a espada da verdade tem dois gumes, por isso é preciso ter cuidado. O exercício dos yamas, que são preceitos morais externos, não pode, portanto, exceder nossa cultura e nosso refinamento. Ou seja, se finjo ter uma moral maior ou mais elevada de que de fato sou capaz, então estou agindo com afetação, com hipocrisia.

Assim, cada estágio da vida, embora tenhamos nos empenhado o tempo todo em dizer a verdade, em não ser possessivos em relação à propriedade alheia, em não roubar, esses princípios morais adquirem significados mais profundos e mais sutis, que se revelam à medida que progredimos. Eles serão mais refinados em nosso interior. Assim, por exemplo, quando somos jovens, roubar pode significar furtar algo de uma loja. Quando somos mais velhos, devemos conter até mesmo comentários ásperos que possam pôr a perder a reputação de alguém, pois de destruímos a reputação de uma pessoa, estamos roubando-lhe algo. Portanto há diferentes níveis de sutileza; e só quando encontramos a nós mesmos é que de fato somos dignos de expressar os níveis superiores da moral. Não é algo que podemos forçar além das nossas capacidades. Temos de estar à altura deles.

Do mesmo modo, não podemos impor aos outros a nossa verdade - e devemos sempre ter certeza de que nossas ações não violentem os demais. Vejamos um exemplo mundano. Se paro de comer chocolate por um ano, é uma austeridade que pratico comigo mesmo, um rigor que pode fazer bem à minha saúde. Se obrigo toda a minha família a abandonar o chocolate por um ano, é uma violência que pratico contra eles, e o mais provável é que, em vez de harmonia, eu crie ressentimentos de divergências familiares, por mais benéfico que seja o efeito sobre sua saúde. Mais uma vez, exemplo é tudo, e quando o exemplo expressa a verdade, ele tem o poder de transformar os outros.

Não roubar, ou não se apropriar do que por direito pertence a outros (asteya),é o terceiro yama. Na infância, aprendemos a não pegar ou roubar os brinquedos de outras crianças, mas não roubar pode ter outras implicações. Acaso não roubamos quando consumimos mais do que nos cabe? Não é roubo quando uma pequena parte da população mundial consome a vasta maioria dos recursos do planeta? Como sugeri há pouco, há modos ainda mais sutis de privar uma pessoa do que é legitimamente dela - honra e reputação, por exemplo.

Antes de entrar no quarto yama, castidade, devo mencionar brevemente o quinto, que está associado ao terceiro (não roubar). O quinto yama é não cobiçar, ou seja, ter uma vida modesta (aparigrahah), viver sem excessos. As duas idéias aqui contidas são: primeiro, que o excesso de uma pessoa pode levar à carência de outras e, segundo, que o excesso em si é uma força que corrompe. Ele leva à servidão da sensualidade e ao desejo de expandir o ego por meio de posses - eu, eu e eu mediante o meu, meu, meu. Se é essa nossa atitude, a jornada interior não passa de uma farsa, desde o início. Isso não quer dizer que a criação da riqueza é em si um mal, mas simplesmente que não devemos entesourá-la sovinamente. A riqueza que não é redistribuída se estagna e nos envenena. Riqueza é energia, e a energia foi feita para circular. Veja seu carro. Quanta energia elétrica ele armazena na bateria? Não muita, apenas o suficiente para dar a partida de manhã e acender os faróis. Se o carro fica muito tempo na garagem, a bateria acaba e a energia se dissipa. Porém, quando o carro anda, ele gera muita energia, recarrega a bateria e obtém tudo que necessita para funcionar, incluindo o aquecedor, o ar-condicionado, o limpador do pára-brisa e rádio.

A energia precisa fluir, senão sua fonte se extingue. Quando somos cobiçosos ou avarentos, impedimos a energia de circular, de produzir mais energia; no fim, por transgredir uma lei natural, somos nós que ficamos mais pobres e envenenados por acumular as riquezas da vida.

Deixei para o fim o quarto yama, castidade ou celibato (brahmacarya), porque ele suscita reações fortes. Para a maioria de nós, brahmacarya significa simplesmente que, se você deseja ser uma pessoa espiritual, então deve tornar-se para sempre um celibatário. No entanto, visto que seria bom que o mundo inteiro quisesse se tornar espiritual, logo teríamos um planeta somente povoado por cães, gatos e vacas. Se havia alguma intenção em Deus, não creio que essa fosse uma delas.

Autocontrole sexual é outra coisa. Sempre desejei ter uma esposa e família. Também queria ser um iogue. Em toda a tradição indiana, não há nenhuma contradição entre essas coisas. Quando minha esposa estava viva, meu brahmacarya se expressava na fidelidade a ela. Depois de sua morte, o desejo desvaneceu, e meu brahmacarya foi o do celibato. Segui a verdade (satya) durante a primeira parte da minha vida e também durante a segunda. Como ambas estavam assentadas na verdade e na integridade, ambas deram frutos.

O amor sexual, como disse, pode ser o aprendizado para o amor universal. O que eu teria alcançado na vida sem o amor, o apoio e a companhia de Ramamani? Provavelmente não muito. Eu era casto, o que significa que me continha. Continha-me entre o quê? Entre as margens do rio da vida - de um lado, o dever ético e religioso (darma), de outro, a liberdade (mocsa).
Se a corrente da minha vida tivesse afagado qualquer uma das margens, minha incapacidade de me controlar - a chamada luxúria desenfreada - teria levado a que me perdesse da busca do Eu. Teria ofendido a verdade e a virtude tal como entendo. Minha consciência ferida teria obscurecido minha Alma.

Nem todos, contudo, se iniciam no caminho a partir do ponto de origem. Muitos principiantes ou neófitos no caminho da ioga não têm disciplina. A verdade é que não posso exigi-la deles, assim como não poderia colocá-los em Hanumanasana na primeira aula. Continuo orientando-os. Corrijo-os no ásana e tento despertar os princípios de yama e niyama nas posturas. Tento levá-los a uma prática mais elevada, mas isso não acontece de uma hora para outra. No fim, porém, eles acabam entendendo que a falta de autodisciplina, em qualquer área, é um desperdício de energia. Por exemplo: até mesmo jogar comida fora é uma ofensa à força vital do alimento. Comer demais, por outro lado, é uma ofensa à própria força vital. O comportamento sem ética, seja de que tipo for, não causará distúrbios ao iniciante, mas seu efeito no plano espiritual será extremamente nocivo. Se encaramos o sexo unicamente como uma questão moral, rebelamo-nos contra ele. Yama não consiste em invocar o oposto do que desejamos fazer, mas em cultivar a percepção correta, a fim de examinar os fatos e conseqüências reais do problema com que estamos lidando.

Yama é o cultivo do que é positivo em nós, não apenas a supressão do que julgamos ser seu oposto diabólico. Se assim considerássemos a falta de prática do yama, estaríamos fadados não a encorajar o bem, mas a ricochetar entre os extremos do vício e da virtude - e isso só nos causaria dor e não teria nenhum efeito evolutivo benéfico para o mundo. Cultive o que é positivo, renuncie ao que é negativo. Pouco a pouco, você chegará lá.

De acordo com Shakespeare, eu diria simplesmente que o amor é um investimento, e a luxúria, um desperdício. É isso que ele quer dizer. A luxúria leva ao isolamento e à solidão, a um deserto espiritual. Brahmacarya implica autocomedimento, a capacidade de se controlar, seja por respeito aos outros, seja para experimentar a totalidade no ásana. Não se abster da atividade sexual. É o controle ético de uma força natural poderosa. O grau de controle dependerá do grau de evolução do praticante. Castidade e fidelidade são conceitos fundamentais, e não devemos esquecer que a raiz de "celibato" em latim significa "ser solteiro", o que não implica imoralidade.

Pode-se aprender yama pela prática do ásana. Por exemplo, se você agride demais um dos lados do corpo, está matando (himsa) as células desse lado. Ao restaurar a enrgia do lado passivo, mais fraco, você aprende a equilibrar violência e não-violência. Quando a forma do ásana expressa a forma do eu, sem tensão, astúcia sem distorção, então você aprendeu a verdade (satya) no ásana. Esteja certo de que, se você quiser, poderá sair da aula levando consigo todas essas lições éticas e assim enriquecer a sua vida. Quando o praticante sente no ásana que sua inteligência está inundando todo o seu corpo através dos invólucros, ele experimenta uma totalidade autocontida, a integridade do ser. Ele sente que se elevou acima dos apegos externos. Essa é a qualidade do celibato em ação.

Mesmo as aflições (klesas) mais enraizadas podem ser dominadas por meio da observação no ásana. É o apego à vida (abhinivesa). Até as pessoas mais sábias são apegadas à vida, pois se trata de algo físico e instintivo. Mas no momento da morte é importante soltar-se para o que vem depois dela, seja lá o que for. Quando nos soltamos, liberamos também as impressões latentes (samskaras) desta vida e nos permitimos um começo limpo no que está por vir. A prática integrada do ásana traz a sabedoria que diminui a ambição da autopreservação. A sublimação de abhinivesa liberta o aspirante espiritual do obstáculo do medo. Dessa maneira, na hora da morte, mantemos a presença de espírito. Isso é útil. Não há pânico, não há fixação no passado, não há medo do futuro desconhecido. Gandhi, por exemplo, após ser atingido pelo tiro disparado por um fanático, manteve a presença de espírito de invocar continuamente o nome de Deus, Rama, Rama. Esse é o fim limpo e um novo começo.
O código do yama deve brotar do centro no nosso ser e irradiar para fora. Do contrario, não passa de uma miscelânea de maneirismos culturais.  

Texto do livro "Luz na Vida" de B.K.S. Iyengar.