sábado, 24 de março de 2012

Yama: viver com a verdadeira ética




Não é pelo condicionamento externo que absorvemos a verdadeira ética. A bondade inata de um cavalo ou cachorro, por exemplo, provém de sua natureza, embora sejam necessários certo treinamento e orientação, especialmente quando são jovens. A moralidade a e ética têm origem no interior do ser humano e são um reflexo de sua consciência. No entanto, são distorcidas ao entrar em contato com a sociedade. Essa distorção perturba a consciência (citta) e também o estado mental consciente (antahkarana) - que reside perto da Alma e recebe o mundo como uma unidade, não uma batalha pela sobrevivência em meio aos aspectos mais brutos da nossa natureza.

A ioga nos exercita a manter-nos longe de motivações egoístas e grosseiras e mostra como cumprir nossas responsabilidades. É como um eixo a partir do qual nos educamos para realizar uma transformação interna, trocando os prazeres comodistas pela emancipação, a servidão pelo mundo de liberdade do Eu, a evolução rumo ao poder do conhecimento pela involução rumo à sabedoria do coração e da Alma.

Esse esforço de se aprimorar é o início da verdadeira religiosidade e o fim da religião como seita ou um rígido padrão de crença. Espiritualidade não é encenar o papel de sermos sagrados, mas a paixão e o anseio internos de auto-realização e a necessidade de encontrar o derradeiro propósito da existência. 

Yama é cultivar o comedimento. Por meio dos princípios do yama, Patanjali mostrou como superar nossas fraquezas psicológicas e emocionais. Yama também significa "Deus da morte". Se não seguimos os princípios do yama, agimos deliberadamente como assassinos da Alma. Quando somos iniciantes, só podemos tentar controlar maus hábitos; porém, com o passar do tempo, os ditames do yama tornam-se impulsos do coração.

O primeiro preceito do yama é a não-agressão, a não-violência (ahimsa); o segundo é a verdade (satya). Apresento-os juntos porque eles demonstram que qualquer pétala aperfeiçoada da ioga modifica o todo. A ioga é uma só, esteja você fazendo a postura do triângulo (Trikonasana) ou dizendo a verdade. Gandhi, o grande homem do século XX, libertou a Índia e mudou o mundo graças a sua perfeição nas duas pétalas: a não-violência e a verdade. Sua não-violência desarmou o poder opressor dos britânicos e também a raiva inerente e a violência contida da população indiana subjugada. Ele conseguiu isso porque suas palavras e ações estavam calcadas na verdade. A verdade é de poder tremendo. Os vedas dizem que nada que não se baseie na verdade pode frutificar ou trazer bons resultados. A verdade é a Alma em comunicação com o estado consciente. Se este transmite a percepção à consciência e então converte tal percepção em ação, é como se nossos atos se tornassem divididos, porque não há interrupção ente o que a Alma vê e os atos que ela realiza.

Gandhi atingiu este ponto e comprovou sua magnífica eficácia. Mas, é claro, a maioria de nós luta num mundo de relatividade, de concessões, de auto-engano e sutil evasão. À medida que a prática da ioga avança e as aflições e os obstáculos a ela passam a ter menos efeito sobre nós, começamos a vislumbrar a glória da verdade. A ignomínia da violência, de fazer mal aos outros, é uma ofensa contra a Unidade fundamental e, portanto, um crime contra a verdade. Cabe observar, contudo, que a extrema austeridade de Gandhi, como seus jejuns prolongados, eram uma forma de violência (himsa) contra si mesmo, pela qual ele chamou a atenção do mundo para o que as pessoas estava fazendo umas as outras.

São muitos os homens e mulheres santos que vieram para nos lembrar que, apesar da nossa diversidade, compartilhamos a unidade. Ramanujacharya, que viveu entre os séculos X e XI e foi um grande devoto de Visnhu, convocou os seres humanos, a despeito das fronteiras de cor, raça, sexo ou casta, a experimentar a divindade, iniciando-os com o bija mantra: "Aum Namo Narayana". Essa "prece-semente", aparentemente simples, acabava com a divisão entre as pessoas ao torná-las conscientes de que todos têm a mesma relação com Deus. Ela significa simplesmente: "Abençoado seja o Senhor Narayana" (um dos nomes de Deus). Séculos depois, foi Mahatma Gandhi que uniu a Índia numa só raça humana ao praticar a verdade e a não-violência, as duas subpétalas do yama da ioga.

Não devemos usar a verdade como uma clava para agredir as outras pessoas. A moral não consiste em olhar para os outros e considerá-los inferiores a nós. A verdade precisa ser temperada com a amabilidade social. Somos todos culpados por elogiar alguém que está evidentemente orgulhoso de sua roupa nova. Se tivéssemos atingido a verdade absoluta, talvez não fizéssemos isso, mas, num mundo relativo, do qual somos observadores imperfeitos, às vezes fazemos concessões. Uma aluna minha de longa data, sem jamais mentir, sempre busca as qualidades positivas das pessoas que ela conhece e tenta ver o lado humano de seus defeitos. Essa compreensão se deve ao fato de ela saber que já teve muitos defeitos, razão por que compadece dos que ainda estão se esforçando. Assim, ela enfatiza o potencial positivo das pessoas, em vez de humilhá-las por suas capacidades negativas inerentes. Chame isso de olhar o lado luminoso, se preferir, mas seja como for, essa conduta nos ajuda a extrair o melhor dos outros. A verdade não é uma arma da qual se pode abusar, e a espada da verdade tem dois gumes, por isso é preciso ter cuidado. O exercício dos yamas, que são preceitos morais externos, não pode, portanto, exceder nossa cultura e nosso refinamento. Ou seja, se finjo ter uma moral maior ou mais elevada de que de fato sou capaz, então estou agindo com afetação, com hipocrisia.

Assim, cada estágio da vida, embora tenhamos nos empenhado o tempo todo em dizer a verdade, em não ser possessivos em relação à propriedade alheia, em não roubar, esses princípios morais adquirem significados mais profundos e mais sutis, que se revelam à medida que progredimos. Eles serão mais refinados em nosso interior. Assim, por exemplo, quando somos jovens, roubar pode significar furtar algo de uma loja. Quando somos mais velhos, devemos conter até mesmo comentários ásperos que possam pôr a perder a reputação de alguém, pois de destruímos a reputação de uma pessoa, estamos roubando-lhe algo. Portanto há diferentes níveis de sutileza; e só quando encontramos a nós mesmos é que de fato somos dignos de expressar os níveis superiores da moral. Não é algo que podemos forçar além das nossas capacidades. Temos de estar à altura deles.

Do mesmo modo, não podemos impor aos outros a nossa verdade - e devemos sempre ter certeza de que nossas ações não violentem os demais. Vejamos um exemplo mundano. Se paro de comer chocolate por um ano, é uma austeridade que pratico comigo mesmo, um rigor que pode fazer bem à minha saúde. Se obrigo toda a minha família a abandonar o chocolate por um ano, é uma violência que pratico contra eles, e o mais provável é que, em vez de harmonia, eu crie ressentimentos de divergências familiares, por mais benéfico que seja o efeito sobre sua saúde. Mais uma vez, exemplo é tudo, e quando o exemplo expressa a verdade, ele tem o poder de transformar os outros.

Não roubar, ou não se apropriar do que por direito pertence a outros (asteya),é o terceiro yama. Na infância, aprendemos a não pegar ou roubar os brinquedos de outras crianças, mas não roubar pode ter outras implicações. Acaso não roubamos quando consumimos mais do que nos cabe? Não é roubo quando uma pequena parte da população mundial consome a vasta maioria dos recursos do planeta? Como sugeri há pouco, há modos ainda mais sutis de privar uma pessoa do que é legitimamente dela - honra e reputação, por exemplo.

Antes de entrar no quarto yama, castidade, devo mencionar brevemente o quinto, que está associado ao terceiro (não roubar). O quinto yama é não cobiçar, ou seja, ter uma vida modesta (aparigrahah), viver sem excessos. As duas idéias aqui contidas são: primeiro, que o excesso de uma pessoa pode levar à carência de outras e, segundo, que o excesso em si é uma força que corrompe. Ele leva à servidão da sensualidade e ao desejo de expandir o ego por meio de posses - eu, eu e eu mediante o meu, meu, meu. Se é essa nossa atitude, a jornada interior não passa de uma farsa, desde o início. Isso não quer dizer que a criação da riqueza é em si um mal, mas simplesmente que não devemos entesourá-la sovinamente. A riqueza que não é redistribuída se estagna e nos envenena. Riqueza é energia, e a energia foi feita para circular. Veja seu carro. Quanta energia elétrica ele armazena na bateria? Não muita, apenas o suficiente para dar a partida de manhã e acender os faróis. Se o carro fica muito tempo na garagem, a bateria acaba e a energia se dissipa. Porém, quando o carro anda, ele gera muita energia, recarrega a bateria e obtém tudo que necessita para funcionar, incluindo o aquecedor, o ar-condicionado, o limpador do pára-brisa e rádio.

A energia precisa fluir, senão sua fonte se extingue. Quando somos cobiçosos ou avarentos, impedimos a energia de circular, de produzir mais energia; no fim, por transgredir uma lei natural, somos nós que ficamos mais pobres e envenenados por acumular as riquezas da vida.

Deixei para o fim o quarto yama, castidade ou celibato (brahmacarya), porque ele suscita reações fortes. Para a maioria de nós, brahmacarya significa simplesmente que, se você deseja ser uma pessoa espiritual, então deve tornar-se para sempre um celibatário. No entanto, visto que seria bom que o mundo inteiro quisesse se tornar espiritual, logo teríamos um planeta somente povoado por cães, gatos e vacas. Se havia alguma intenção em Deus, não creio que essa fosse uma delas.

Autocontrole sexual é outra coisa. Sempre desejei ter uma esposa e família. Também queria ser um iogue. Em toda a tradição indiana, não há nenhuma contradição entre essas coisas. Quando minha esposa estava viva, meu brahmacarya se expressava na fidelidade a ela. Depois de sua morte, o desejo desvaneceu, e meu brahmacarya foi o do celibato. Segui a verdade (satya) durante a primeira parte da minha vida e também durante a segunda. Como ambas estavam assentadas na verdade e na integridade, ambas deram frutos.

O amor sexual, como disse, pode ser o aprendizado para o amor universal. O que eu teria alcançado na vida sem o amor, o apoio e a companhia de Ramamani? Provavelmente não muito. Eu era casto, o que significa que me continha. Continha-me entre o quê? Entre as margens do rio da vida - de um lado, o dever ético e religioso (darma), de outro, a liberdade (mocsa).
Se a corrente da minha vida tivesse afagado qualquer uma das margens, minha incapacidade de me controlar - a chamada luxúria desenfreada - teria levado a que me perdesse da busca do Eu. Teria ofendido a verdade e a virtude tal como entendo. Minha consciência ferida teria obscurecido minha Alma.

Nem todos, contudo, se iniciam no caminho a partir do ponto de origem. Muitos principiantes ou neófitos no caminho da ioga não têm disciplina. A verdade é que não posso exigi-la deles, assim como não poderia colocá-los em Hanumanasana na primeira aula. Continuo orientando-os. Corrijo-os no ásana e tento despertar os princípios de yama e niyama nas posturas. Tento levá-los a uma prática mais elevada, mas isso não acontece de uma hora para outra. No fim, porém, eles acabam entendendo que a falta de autodisciplina, em qualquer área, é um desperdício de energia. Por exemplo: até mesmo jogar comida fora é uma ofensa à força vital do alimento. Comer demais, por outro lado, é uma ofensa à própria força vital. O comportamento sem ética, seja de que tipo for, não causará distúrbios ao iniciante, mas seu efeito no plano espiritual será extremamente nocivo. Se encaramos o sexo unicamente como uma questão moral, rebelamo-nos contra ele. Yama não consiste em invocar o oposto do que desejamos fazer, mas em cultivar a percepção correta, a fim de examinar os fatos e conseqüências reais do problema com que estamos lidando.

Yama é o cultivo do que é positivo em nós, não apenas a supressão do que julgamos ser seu oposto diabólico. Se assim considerássemos a falta de prática do yama, estaríamos fadados não a encorajar o bem, mas a ricochetar entre os extremos do vício e da virtude - e isso só nos causaria dor e não teria nenhum efeito evolutivo benéfico para o mundo. Cultive o que é positivo, renuncie ao que é negativo. Pouco a pouco, você chegará lá.

De acordo com Shakespeare, eu diria simplesmente que o amor é um investimento, e a luxúria, um desperdício. É isso que ele quer dizer. A luxúria leva ao isolamento e à solidão, a um deserto espiritual. Brahmacarya implica autocomedimento, a capacidade de se controlar, seja por respeito aos outros, seja para experimentar a totalidade no ásana. Não se abster da atividade sexual. É o controle ético de uma força natural poderosa. O grau de controle dependerá do grau de evolução do praticante. Castidade e fidelidade são conceitos fundamentais, e não devemos esquecer que a raiz de "celibato" em latim significa "ser solteiro", o que não implica imoralidade.

Pode-se aprender yama pela prática do ásana. Por exemplo, se você agride demais um dos lados do corpo, está matando (himsa) as células desse lado. Ao restaurar a enrgia do lado passivo, mais fraco, você aprende a equilibrar violência e não-violência. Quando a forma do ásana expressa a forma do eu, sem tensão, astúcia sem distorção, então você aprendeu a verdade (satya) no ásana. Esteja certo de que, se você quiser, poderá sair da aula levando consigo todas essas lições éticas e assim enriquecer a sua vida. Quando o praticante sente no ásana que sua inteligência está inundando todo o seu corpo através dos invólucros, ele experimenta uma totalidade autocontida, a integridade do ser. Ele sente que se elevou acima dos apegos externos. Essa é a qualidade do celibato em ação.

Mesmo as aflições (klesas) mais enraizadas podem ser dominadas por meio da observação no ásana. É o apego à vida (abhinivesa). Até as pessoas mais sábias são apegadas à vida, pois se trata de algo físico e instintivo. Mas no momento da morte é importante soltar-se para o que vem depois dela, seja lá o que for. Quando nos soltamos, liberamos também as impressões latentes (samskaras) desta vida e nos permitimos um começo limpo no que está por vir. A prática integrada do ásana traz a sabedoria que diminui a ambição da autopreservação. A sublimação de abhinivesa liberta o aspirante espiritual do obstáculo do medo. Dessa maneira, na hora da morte, mantemos a presença de espírito. Isso é útil. Não há pânico, não há fixação no passado, não há medo do futuro desconhecido. Gandhi, por exemplo, após ser atingido pelo tiro disparado por um fanático, manteve a presença de espírito de invocar continuamente o nome de Deus, Rama, Rama. Esse é o fim limpo e um novo começo.
O código do yama deve brotar do centro no nosso ser e irradiar para fora. Do contrario, não passa de uma miscelânea de maneirismos culturais.  

Texto do livro "Luz na Vida" de B.K.S. Iyengar.

Niyama: a purificação de si mesmo


 

Há cinco niyamas, ou preceitos éticos individuais. São eles: limpeza (sauca), contentamento (santosa), austeridade (tapas), auto-estudo ou estudo do ser (svadhyaya) e entrega devocional a Deus (
Isvara pranidhana). Sauca se refere à limpeza alcançada pela prática do ásana. Cultivar o contentamento (santosa) é fazer da mente um instrumento adequado para a meditação, já que o contentamento (santosa) é a semente do estado meditativo. Tapas é a prática constante, executada com paixão, dedicação e devoção, visando ganhar poder físico (sakti). O auto-estudo (svadhyaya) é a busca da inteligência perspicaz (kushalata). Na ação, isso se chama yukti, a engenhosidade e a clareza necessárias para seguir a sadhana. No que diz respeito ao auto-estudo e ao autoconhecimento, o papel principal compete às pétalas de pratyahara (o investimento interno de nossas energias) e dharana (concentração). Isvara pranidhana é bhakti, que significa total entrega a Deus. Essa entrega só pode acontecer com a culminância da aptidão física e da inteligência perspicaz. É aí que se unem as pétalas dhyana (meditação) e samádi (absorção espiritual).

Cabe assinalar aqui que Isvara é Deus no sentido universal e abrangente, equivale ao Deus de religiões monoteístas. Isvara abarca e inclui todos os outros conceitos de divindade, sob qualquer forma ou sexo. É simplesmente Deus, e por isso digo que, embora os hindus tenham muitos deuses, no final todos se combinam num único conceito monoteísta, o de Ser Supremo. Os hindus não são idólatras, mas pessoas que cultuam o Uno em suas muitas formas, assim como os cristãos oram para um determinado santo quando têm um problema específico.

É longo o caminho entre tomar banho e encontrar Deus; assim, vejamos antes por que e como a maioria de nós não consegue sair dos dois primeiros niyamas.

Pureza e Limpeza
Podemos lavar a pele do corpo com um banho, mas, por meio da prática do ásana, não apenas purificamos o sangue e nutrimos as células, como limpamos também o corpo interior. Ao observar o que ingerimos, podemos manter o corpo mais limpo. A geografia está muito ligada à dieta. O clima e outros fatores influenciam o que as pessoas comem. Mas existem algumas orientações básicas que podem ser úteis a todos. Não coma se sua boca não salivar diante da comida que está diante de você. Em segundo lugar, quando somente o cérebro especula sobre a escolha do alimento, significa que o corpo não precisa de comida. Se mesmo assim você comer, a comida não será nutritiva. Será um excesso e levará você a comer demais, o que polui o corpo.

Os invólucros sutis também podem ser limpos. Quando paramos de ver pornografia e violência, deixamos de ter pesadelos e nos tornamos mais atentos a nós mesmos, a mente se purifica, a lente da consciência fica mais limpa. Isso leva naturalmente ao segundo niyama, o contentamento, porque este só pode se originar da habilidade de harmonizar-se com o ambiente imediato.

De maneira geral, o que nos aborrece, o que nos perturba, o que nos deixa infelizes são as ninharias do cotidiano, como ser repreendido pelo chefe, ter uma rixa com a esposa, ser reprovado num exame ou sofrer uma batida de carro sem importância. Todas essas pequenas coisas roubam-nos o equilíbrio. Uma mente pura é uma mente harmoniosa. A harmonia está tanto fora quanto dentro. Quando a consciência, a força e a energia se combinam, podemos cuidar das pequenas chateações do dia-a-dia com tranqüilidade, lidar com elas pelo que são - reais mas limitadas - e então deixá-los de lado. O contentamento, a aceitação do quinhão misto que nos cabe como seres humanos, retorna. O ressentimento não vem contaminar e envenenar até mesmo os momentos mais satisfatórios do dia.

Se temos limpeza e serenidade internas, podemos estar em harmonia com o ambiente imediato. Se estamos equilibrados e claros, as mudanças, as perturbações e os eventos da vida diária não nos tiram do equilíbrio. Podemos adaptar-nos a eles. Somos sensíveis a ele, somos flexíveis e sobrevivemos sem trauma. Você tem um pequeno acidente com o carro, mas percebe que não é grande coisa, pois está flexível e se adapta.

Essa capacidade de harmonizar com o ambiente imediato é uma grande recompensa. Para limpar-nos, temos o contentamento que resulta de agir com suavidade no ambiente e não ser perturbados por seus inevitáveis desafios e transtornos. Esse é contentamento no niyama, que nos permite atingir os níveis mais profundos da autopenetração e da autotransformação. Se queremos nos transformar, precisamos nos limpar, purificar, alcançar a serenidade, a flexibilidade e a capacidade de flutuar internamente. Aí então podemos prosseguir com a transformação nos níveis mais profundos da consciência, que constitui a busca do iogue.

A maioria das pessoas pratica ioga segundo os parâmetros do primeiro e do segundo niyama, que são a limpeza e o contentamento. O benefício imediato que elas obtêm da prática (ir à aula, exercitar-se um pouco em casa) é a saúde cada vez melhor, que é limpeza. É uma saúde profunda, orgânica, além de clareza mental, bem-estar e repouso, capacidade de relaxar e descansar, de nutrir-se por respirar melhor. Isso gera uma melhora na limpeza, na saúde profunda, e concomitantemente há um contentamento maior, uma integração maior com o ambiente, à medida que nos tornamos mais hábeis para lidar com seus altos e baixos. É nesses dois círculos que a maior parte das pessoas vivencia a ioga. É uma recompensa rápida e magnífica. Por que então se manter aí, já que essa é a definição de uma vida boa, decente e feliz? Se não seguimos em frente, se nos acomodamos ao bem-estar transitório, novos problemas surgem. Em outras palavras, quando está feliz, limpo e contente, você começa a se sentir satisfeito consigo mesmo: "Estou bem". Isso pode levar à vaidade e ao orgulho, a uma superioridade presunçosa que dá ensejo novamente aos defeitos intelectuais que nos desfiguram. Ou levar à letargia e á preguiça, pois nos tornamos complacentes com a prática.

Somos criaturas desenhadas para o desafio contínuo. Ou crescemos ou começamos a morrer. O status quo leva à estagnação e à insatisfação. Portanto, ficar parados não é de fato uma boa escolha. Temos de prosseguir; do contrário, virão os contra-tempos. Já aprendemos a lidar com os transtornos externos, como perder o emprego, mas quando a vaidade, o orgulho e a preguiça se instalam, os transtornos (que eu chamaria de enfermidades do espírito) criam raiz dentro de nós. Por isso, a natureza nos propõe novos desafios. Estamos sempre às voltas com os problemas cotidianos, mas será que encaramos a doença interna provocada pelo crescimento da vaidade, do orgulho e da preguiça? Esse é um desafio novo. Temos de enfrentá-lo, mas não conseguiremos se ficarmos presos à ioga do prazer, à ioga egoísta de dizer: "Eu estou ótimo, e você está numa confusão, não?" Assim, a necessidade de preservar vem do fato de que, se não seguirmos em frente, novos problemas surgirão e ficaremos atolados neles. É por isso que somos forçados a persistir na prática.

A terceira, a quarta e a quinta etapa do niyama formam uma unidade. A primeira é tapas, a prática constante e diligente que está no centro de toda a ioga. Ela o fio que prende toda a prática da ioga. Significa literalmente calor, o calor que, no sentido alquímico, transforma. É a prática que jamais se pode abandonar, uma dedicação contínua à evolução humana.

Sem o discernimento rigoroso e penetrante do autoconhecimento (svadhyaya), o quarto niyama, tapas levaria ao poder, mas não à penetração nem à integração. Ele apenas geraria energia, mas sem direção. Tapas nos dá energia; svadhyaya, a luz do conhecimento. O auto-estudo tem o claro propósito de penetrar; assim, o fogo transformador de tapas entra progressivamente nos deferentes invólucros do ser e nos ilumina com o autoconhecimento. O autoconhecimento pode começar com o reconhecimento de que é difícil para nós controlar o desejo de sorvete; em planos mais profundos, porém, ele diz respeito ao nosso egoísmo, duplicidade, ânsia de poder, desejo de admiração, arrogância e, por fim, ambição de ocupar o lugar de Deus imortal. O autoconhecimento nem sempre é confortável. Se não gostamos do que descobrimos, somos obrigados, com toda a honestidade, a fazer alguma coisa para mudá-lo.

O quinto niyama é Isvara pranidhana, que significa "entrega devocional a Deus". Esse é o aspecto mais teísta da ioga. Isvara significa a divindade no sentido geral, não na acepção de alguma seita. Mas não significa, de modo algum, usar o ego para questionar a vontade de Deus. Ao contrário, quer dizer entrega, por meio da meditação (dhyana), e devoção (bhakti) - do próprio ego. É a renúncia absoluta do eu individual. Portanto, não fazem parte da equação nossas idéias pessoais sobre o que Deus seja ou não. É ofertar-nos, e a todas as nossas ações - por mais triviais que sejam, desde preparar uma refeição até acender uma vela -, ao Divino Universal. Quais são as intenções dessa divindade não é assunto nosso. Só o que precisamos fazer é reverenciar a Unidade primitiva, original e eterna. Deus existe. É essa existência que ilumina nossas ações. Isso é entrega e devoção ao Ser Supremo (Isvara pranidhana).

O niyama nos ajuda a estabelecer a conduta correta e destruir as sementes das aflições (dosabija). Examinemos agora os cinco niyamas para integrá-los mais intimamente aos cinco invólucros do ser e às outras pétalas da ioga. É a prática dos yamas, dos niyamas e das seis outras pétalas da ioga que nos permite penetrar da pele à Alma.

A limpeza, como vimos, é mais do que tomar um banho. Chega-se a ela pela prática do ásana, que limpa os corpos interno e externo. A limpeza (sauca) obtida pela prática do ásana subjulga a inércia exterior do corpo e infunde-lhe a vibração de rajas, proporcionando um trampolim para as qualidades superiores da vida.

O contentamento (santosa), no sentido ióguico de harmonia duradoura e estável, resulta da prática do pranaiama, que, por sua vez, subjulga a natureza ativa (rajásica) da mente e possibilita uma prática diligente e constante. Em santosa, o tronco é um recipiente que se enche de energia cósmica que entra na forma de inspiração. Algo, algum lugar dentro de nos, abre espaço para que a energia cósmica, a portadora da inteligência cósmica, ocupe seu lugar e se aloje. Temos então a sensação de que algo bom ou promissor está se instalando. É aí, na verdade, que a evolução e a involução se unem. Pois a dádiva do contentamento é que a Alma também se desloca do centro do ser para ocupar o torso. Estamos sendo preenchidos de fora para dentro, sim, mas então o que está dentro, já não encontrando mais nenhuma obstrução, se move par afora e também nos preenche. Esse é o contentamento da plenitude, da repleção, mas na expiração, a Alma se expande para encher o espaço deixado pela respiração e nos impregna de um contentamento carregado não de energia prânica, mas do insight da Alma. Embora o estado de alternância seja dual, ele acalma e neutraliza as ondas provocadas pelas flutuações da mente. Na prática, significa que, quando algo acontece, não me desvio do curso, e, quando nada acontece, não me perco no caminho.

O terceiro niyama, austeridade pela prática constante (tapas), corresponde ao pratyahara, o eixo entre os aspectos internos e externos da prática da ioga. A percepção cognitiva se volta para dentro tendo em vista o autoconhecimento (svadhyaya). Ela nos dirige para o centro do ser e, como o fole do ferreiro, mantém-se sempre a atiçar o interior da chama da prática; do contrário, a transformação alquímica por meio do calor extremo jamais acontecerá. O fogo queimará alegremente, mas não converterá chumbo em ouro.

O quarto niyama, autoconhecimento (svadhyaya), é difícil. Estamos acostumados a associar o conhecimento com a aquisição de aprendizado (vidya). Na realidade, svadhyaya, seja pelo estudo ou pela auto-análise, é o caminho da concentração (dharana), que, por meio de uma senda dura e perigosa, conduz ao conhecimento e ao desnudamento do eu falso, pretensioso, com suas falhas e virtudes fictícias. Sua recompensa é o caminho da sabedoria (jnana marga), que, ao nos liberar da auto-ilusão, prapara-nos para o próximo grande passo: a entrega a Deus.

Isvara pranidhana, a entrega a Deus, é muitas vezes comparada a bhakti, a ioga da suprema devoção e altruísmo. O ego se apóia num elástico e, por isso, sempre puxará você de volta. Somente a prática da meditação pode por fim à atração entre o ego e a identidade pessoal.

Só uma pessoa que se livrou do ego, talvez por alguma circunstância, adversidade ou humilhação, pode se entregar a Deus. Para que a entrega seja duradoura, deve-se alcançar o estágio mais elevado da meditação. Entregar-se a Deus não é se entregar ao que você acha que Deus quer - à sua concepção da vontade de Deus. Não significa que Deus lhe dará alguma instrução. Enquanto persistir o ego, sua interpretação dos desejos de Deus será fragmentada pelo prisma do ego, que a tudo distorce. Somente num estado de ausência do ego - o estado de quem atingiu o ápice do samádhi sem sementes (nirbija) - a voz de Deus falará sem o crivo intermediário da fragilidade humana. E o que Deus lhe dirá nesse estado de absoluta liberdade, de kaivalya? Ele lhe dirá para prosseguir no mundo, mas sem jamais esquecer dele.

Conta a lenda que um monge, após muitos anos de esforço no caminho da emancipação, caiu em desespero por nunca alcançar a suprema liberdade, apesar de toda a sua prática. Assim, decidiu escalar a montanha próxima de sua casa e ali perecer ou encontrar a iluminação. Colocou seus poucos bens numa mochila e iniciou a escalada. Perto do cume, deparou com um ancião que descia a montanha. Seus olhos se fitaram, e eis que a iluminação aconteceu. A mochila do monge caiu no chão. Após alguns momentos de silêncio e êxtase, o monge olhou para o ancião e perguntou: "E agora, o que devo fazer?" Sem proferir uma palavra, o ancião apontou para a mochila e, por meio de gestos, indicou ao monge que a colocasse de novo nos ombros e voltasse para o vale. O monge pegou a mochila e desceu para o vale. Isso foi iluminação na montanha. O retorno ao vale foi kaivalaya.

Eu também vivo no vale, à fim de servir as necessidades dos meus alunos. Vivo na prática da ioga (sadhana) sempre em contato com asmita, e assim o ego e o orgulho não crescem no "eu" individual e sutil. Sou também um hatha-iogue, ou seja, quero que meus alunos vejam o sol, experimentem seu próprio sol, sua própria Alma. Meus alunos me chamam de guru. Gu significa escuridão; Ru, luz. O caminho de sunnyasin me levou a viver em total reclusão, mas ainda sinto que é meu dever servir, ser um guru no sentido de trazer luz à escuridão. Esse é o meu darma, meu dever permanente. Só posso me sentir contente com a inquietação divina que me move.

Quando jovem, queria ser um artista na prática da ioga. Quando vi pela primeira vez as lindas mãos de Yehudi Menuhin, pensei: "Quero mãos de artista tão refinadas quanto essas, em vez das mãos grosseiras que tenho". Com o tempo, elas atingiram um alto grau de sensibilidade. Minha motivação, porém, era não só ióguica, como também artística. Era esse impulso também que alimentava minhas apresentações e minha alegria diante da receptividade a elas. Era então um homem perdido, que, por um lado, aspirava à arte e, por outro, a busca da Alma. Uma serviu de estímulo à outra. Até que fui tomado pela ioga pura, e a arte tornou-se secundária ou incidental.

Texto do livro "Luz na Vida" de B.K.S. Iyengar.