sábado, 24 de março de 2012

Niyama: a purificação de si mesmo


 

Há cinco niyamas, ou preceitos éticos individuais. São eles: limpeza (sauca), contentamento (santosa), austeridade (tapas), auto-estudo ou estudo do ser (svadhyaya) e entrega devocional a Deus (
Isvara pranidhana). Sauca se refere à limpeza alcançada pela prática do ásana. Cultivar o contentamento (santosa) é fazer da mente um instrumento adequado para a meditação, já que o contentamento (santosa) é a semente do estado meditativo. Tapas é a prática constante, executada com paixão, dedicação e devoção, visando ganhar poder físico (sakti). O auto-estudo (svadhyaya) é a busca da inteligência perspicaz (kushalata). Na ação, isso se chama yukti, a engenhosidade e a clareza necessárias para seguir a sadhana. No que diz respeito ao auto-estudo e ao autoconhecimento, o papel principal compete às pétalas de pratyahara (o investimento interno de nossas energias) e dharana (concentração). Isvara pranidhana é bhakti, que significa total entrega a Deus. Essa entrega só pode acontecer com a culminância da aptidão física e da inteligência perspicaz. É aí que se unem as pétalas dhyana (meditação) e samádi (absorção espiritual).

Cabe assinalar aqui que Isvara é Deus no sentido universal e abrangente, equivale ao Deus de religiões monoteístas. Isvara abarca e inclui todos os outros conceitos de divindade, sob qualquer forma ou sexo. É simplesmente Deus, e por isso digo que, embora os hindus tenham muitos deuses, no final todos se combinam num único conceito monoteísta, o de Ser Supremo. Os hindus não são idólatras, mas pessoas que cultuam o Uno em suas muitas formas, assim como os cristãos oram para um determinado santo quando têm um problema específico.

É longo o caminho entre tomar banho e encontrar Deus; assim, vejamos antes por que e como a maioria de nós não consegue sair dos dois primeiros niyamas.

Pureza e Limpeza
Podemos lavar a pele do corpo com um banho, mas, por meio da prática do ásana, não apenas purificamos o sangue e nutrimos as células, como limpamos também o corpo interior. Ao observar o que ingerimos, podemos manter o corpo mais limpo. A geografia está muito ligada à dieta. O clima e outros fatores influenciam o que as pessoas comem. Mas existem algumas orientações básicas que podem ser úteis a todos. Não coma se sua boca não salivar diante da comida que está diante de você. Em segundo lugar, quando somente o cérebro especula sobre a escolha do alimento, significa que o corpo não precisa de comida. Se mesmo assim você comer, a comida não será nutritiva. Será um excesso e levará você a comer demais, o que polui o corpo.

Os invólucros sutis também podem ser limpos. Quando paramos de ver pornografia e violência, deixamos de ter pesadelos e nos tornamos mais atentos a nós mesmos, a mente se purifica, a lente da consciência fica mais limpa. Isso leva naturalmente ao segundo niyama, o contentamento, porque este só pode se originar da habilidade de harmonizar-se com o ambiente imediato.

De maneira geral, o que nos aborrece, o que nos perturba, o que nos deixa infelizes são as ninharias do cotidiano, como ser repreendido pelo chefe, ter uma rixa com a esposa, ser reprovado num exame ou sofrer uma batida de carro sem importância. Todas essas pequenas coisas roubam-nos o equilíbrio. Uma mente pura é uma mente harmoniosa. A harmonia está tanto fora quanto dentro. Quando a consciência, a força e a energia se combinam, podemos cuidar das pequenas chateações do dia-a-dia com tranqüilidade, lidar com elas pelo que são - reais mas limitadas - e então deixá-los de lado. O contentamento, a aceitação do quinhão misto que nos cabe como seres humanos, retorna. O ressentimento não vem contaminar e envenenar até mesmo os momentos mais satisfatórios do dia.

Se temos limpeza e serenidade internas, podemos estar em harmonia com o ambiente imediato. Se estamos equilibrados e claros, as mudanças, as perturbações e os eventos da vida diária não nos tiram do equilíbrio. Podemos adaptar-nos a eles. Somos sensíveis a ele, somos flexíveis e sobrevivemos sem trauma. Você tem um pequeno acidente com o carro, mas percebe que não é grande coisa, pois está flexível e se adapta.

Essa capacidade de harmonizar com o ambiente imediato é uma grande recompensa. Para limpar-nos, temos o contentamento que resulta de agir com suavidade no ambiente e não ser perturbados por seus inevitáveis desafios e transtornos. Esse é contentamento no niyama, que nos permite atingir os níveis mais profundos da autopenetração e da autotransformação. Se queremos nos transformar, precisamos nos limpar, purificar, alcançar a serenidade, a flexibilidade e a capacidade de flutuar internamente. Aí então podemos prosseguir com a transformação nos níveis mais profundos da consciência, que constitui a busca do iogue.

A maioria das pessoas pratica ioga segundo os parâmetros do primeiro e do segundo niyama, que são a limpeza e o contentamento. O benefício imediato que elas obtêm da prática (ir à aula, exercitar-se um pouco em casa) é a saúde cada vez melhor, que é limpeza. É uma saúde profunda, orgânica, além de clareza mental, bem-estar e repouso, capacidade de relaxar e descansar, de nutrir-se por respirar melhor. Isso gera uma melhora na limpeza, na saúde profunda, e concomitantemente há um contentamento maior, uma integração maior com o ambiente, à medida que nos tornamos mais hábeis para lidar com seus altos e baixos. É nesses dois círculos que a maior parte das pessoas vivencia a ioga. É uma recompensa rápida e magnífica. Por que então se manter aí, já que essa é a definição de uma vida boa, decente e feliz? Se não seguimos em frente, se nos acomodamos ao bem-estar transitório, novos problemas surgem. Em outras palavras, quando está feliz, limpo e contente, você começa a se sentir satisfeito consigo mesmo: "Estou bem". Isso pode levar à vaidade e ao orgulho, a uma superioridade presunçosa que dá ensejo novamente aos defeitos intelectuais que nos desfiguram. Ou levar à letargia e á preguiça, pois nos tornamos complacentes com a prática.

Somos criaturas desenhadas para o desafio contínuo. Ou crescemos ou começamos a morrer. O status quo leva à estagnação e à insatisfação. Portanto, ficar parados não é de fato uma boa escolha. Temos de prosseguir; do contrário, virão os contra-tempos. Já aprendemos a lidar com os transtornos externos, como perder o emprego, mas quando a vaidade, o orgulho e a preguiça se instalam, os transtornos (que eu chamaria de enfermidades do espírito) criam raiz dentro de nós. Por isso, a natureza nos propõe novos desafios. Estamos sempre às voltas com os problemas cotidianos, mas será que encaramos a doença interna provocada pelo crescimento da vaidade, do orgulho e da preguiça? Esse é um desafio novo. Temos de enfrentá-lo, mas não conseguiremos se ficarmos presos à ioga do prazer, à ioga egoísta de dizer: "Eu estou ótimo, e você está numa confusão, não?" Assim, a necessidade de preservar vem do fato de que, se não seguirmos em frente, novos problemas surgirão e ficaremos atolados neles. É por isso que somos forçados a persistir na prática.

A terceira, a quarta e a quinta etapa do niyama formam uma unidade. A primeira é tapas, a prática constante e diligente que está no centro de toda a ioga. Ela o fio que prende toda a prática da ioga. Significa literalmente calor, o calor que, no sentido alquímico, transforma. É a prática que jamais se pode abandonar, uma dedicação contínua à evolução humana.

Sem o discernimento rigoroso e penetrante do autoconhecimento (svadhyaya), o quarto niyama, tapas levaria ao poder, mas não à penetração nem à integração. Ele apenas geraria energia, mas sem direção. Tapas nos dá energia; svadhyaya, a luz do conhecimento. O auto-estudo tem o claro propósito de penetrar; assim, o fogo transformador de tapas entra progressivamente nos deferentes invólucros do ser e nos ilumina com o autoconhecimento. O autoconhecimento pode começar com o reconhecimento de que é difícil para nós controlar o desejo de sorvete; em planos mais profundos, porém, ele diz respeito ao nosso egoísmo, duplicidade, ânsia de poder, desejo de admiração, arrogância e, por fim, ambição de ocupar o lugar de Deus imortal. O autoconhecimento nem sempre é confortável. Se não gostamos do que descobrimos, somos obrigados, com toda a honestidade, a fazer alguma coisa para mudá-lo.

O quinto niyama é Isvara pranidhana, que significa "entrega devocional a Deus". Esse é o aspecto mais teísta da ioga. Isvara significa a divindade no sentido geral, não na acepção de alguma seita. Mas não significa, de modo algum, usar o ego para questionar a vontade de Deus. Ao contrário, quer dizer entrega, por meio da meditação (dhyana), e devoção (bhakti) - do próprio ego. É a renúncia absoluta do eu individual. Portanto, não fazem parte da equação nossas idéias pessoais sobre o que Deus seja ou não. É ofertar-nos, e a todas as nossas ações - por mais triviais que sejam, desde preparar uma refeição até acender uma vela -, ao Divino Universal. Quais são as intenções dessa divindade não é assunto nosso. Só o que precisamos fazer é reverenciar a Unidade primitiva, original e eterna. Deus existe. É essa existência que ilumina nossas ações. Isso é entrega e devoção ao Ser Supremo (Isvara pranidhana).

O niyama nos ajuda a estabelecer a conduta correta e destruir as sementes das aflições (dosabija). Examinemos agora os cinco niyamas para integrá-los mais intimamente aos cinco invólucros do ser e às outras pétalas da ioga. É a prática dos yamas, dos niyamas e das seis outras pétalas da ioga que nos permite penetrar da pele à Alma.

A limpeza, como vimos, é mais do que tomar um banho. Chega-se a ela pela prática do ásana, que limpa os corpos interno e externo. A limpeza (sauca) obtida pela prática do ásana subjulga a inércia exterior do corpo e infunde-lhe a vibração de rajas, proporcionando um trampolim para as qualidades superiores da vida.

O contentamento (santosa), no sentido ióguico de harmonia duradoura e estável, resulta da prática do pranaiama, que, por sua vez, subjulga a natureza ativa (rajásica) da mente e possibilita uma prática diligente e constante. Em santosa, o tronco é um recipiente que se enche de energia cósmica que entra na forma de inspiração. Algo, algum lugar dentro de nos, abre espaço para que a energia cósmica, a portadora da inteligência cósmica, ocupe seu lugar e se aloje. Temos então a sensação de que algo bom ou promissor está se instalando. É aí, na verdade, que a evolução e a involução se unem. Pois a dádiva do contentamento é que a Alma também se desloca do centro do ser para ocupar o torso. Estamos sendo preenchidos de fora para dentro, sim, mas então o que está dentro, já não encontrando mais nenhuma obstrução, se move par afora e também nos preenche. Esse é o contentamento da plenitude, da repleção, mas na expiração, a Alma se expande para encher o espaço deixado pela respiração e nos impregna de um contentamento carregado não de energia prânica, mas do insight da Alma. Embora o estado de alternância seja dual, ele acalma e neutraliza as ondas provocadas pelas flutuações da mente. Na prática, significa que, quando algo acontece, não me desvio do curso, e, quando nada acontece, não me perco no caminho.

O terceiro niyama, austeridade pela prática constante (tapas), corresponde ao pratyahara, o eixo entre os aspectos internos e externos da prática da ioga. A percepção cognitiva se volta para dentro tendo em vista o autoconhecimento (svadhyaya). Ela nos dirige para o centro do ser e, como o fole do ferreiro, mantém-se sempre a atiçar o interior da chama da prática; do contrário, a transformação alquímica por meio do calor extremo jamais acontecerá. O fogo queimará alegremente, mas não converterá chumbo em ouro.

O quarto niyama, autoconhecimento (svadhyaya), é difícil. Estamos acostumados a associar o conhecimento com a aquisição de aprendizado (vidya). Na realidade, svadhyaya, seja pelo estudo ou pela auto-análise, é o caminho da concentração (dharana), que, por meio de uma senda dura e perigosa, conduz ao conhecimento e ao desnudamento do eu falso, pretensioso, com suas falhas e virtudes fictícias. Sua recompensa é o caminho da sabedoria (jnana marga), que, ao nos liberar da auto-ilusão, prapara-nos para o próximo grande passo: a entrega a Deus.

Isvara pranidhana, a entrega a Deus, é muitas vezes comparada a bhakti, a ioga da suprema devoção e altruísmo. O ego se apóia num elástico e, por isso, sempre puxará você de volta. Somente a prática da meditação pode por fim à atração entre o ego e a identidade pessoal.

Só uma pessoa que se livrou do ego, talvez por alguma circunstância, adversidade ou humilhação, pode se entregar a Deus. Para que a entrega seja duradoura, deve-se alcançar o estágio mais elevado da meditação. Entregar-se a Deus não é se entregar ao que você acha que Deus quer - à sua concepção da vontade de Deus. Não significa que Deus lhe dará alguma instrução. Enquanto persistir o ego, sua interpretação dos desejos de Deus será fragmentada pelo prisma do ego, que a tudo distorce. Somente num estado de ausência do ego - o estado de quem atingiu o ápice do samádhi sem sementes (nirbija) - a voz de Deus falará sem o crivo intermediário da fragilidade humana. E o que Deus lhe dirá nesse estado de absoluta liberdade, de kaivalya? Ele lhe dirá para prosseguir no mundo, mas sem jamais esquecer dele.

Conta a lenda que um monge, após muitos anos de esforço no caminho da emancipação, caiu em desespero por nunca alcançar a suprema liberdade, apesar de toda a sua prática. Assim, decidiu escalar a montanha próxima de sua casa e ali perecer ou encontrar a iluminação. Colocou seus poucos bens numa mochila e iniciou a escalada. Perto do cume, deparou com um ancião que descia a montanha. Seus olhos se fitaram, e eis que a iluminação aconteceu. A mochila do monge caiu no chão. Após alguns momentos de silêncio e êxtase, o monge olhou para o ancião e perguntou: "E agora, o que devo fazer?" Sem proferir uma palavra, o ancião apontou para a mochila e, por meio de gestos, indicou ao monge que a colocasse de novo nos ombros e voltasse para o vale. O monge pegou a mochila e desceu para o vale. Isso foi iluminação na montanha. O retorno ao vale foi kaivalaya.

Eu também vivo no vale, à fim de servir as necessidades dos meus alunos. Vivo na prática da ioga (sadhana) sempre em contato com asmita, e assim o ego e o orgulho não crescem no "eu" individual e sutil. Sou também um hatha-iogue, ou seja, quero que meus alunos vejam o sol, experimentem seu próprio sol, sua própria Alma. Meus alunos me chamam de guru. Gu significa escuridão; Ru, luz. O caminho de sunnyasin me levou a viver em total reclusão, mas ainda sinto que é meu dever servir, ser um guru no sentido de trazer luz à escuridão. Esse é o meu darma, meu dever permanente. Só posso me sentir contente com a inquietação divina que me move.

Quando jovem, queria ser um artista na prática da ioga. Quando vi pela primeira vez as lindas mãos de Yehudi Menuhin, pensei: "Quero mãos de artista tão refinadas quanto essas, em vez das mãos grosseiras que tenho". Com o tempo, elas atingiram um alto grau de sensibilidade. Minha motivação, porém, era não só ióguica, como também artística. Era esse impulso também que alimentava minhas apresentações e minha alegria diante da receptividade a elas. Era então um homem perdido, que, por um lado, aspirava à arte e, por outro, a busca da Alma. Uma serviu de estímulo à outra. Até que fui tomado pela ioga pura, e a arte tornou-se secundária ou incidental.

Texto do livro "Luz na Vida" de B.K.S. Iyengar.

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