sábado, 24 de março de 2012

Yama: viver com a verdadeira ética




Não é pelo condicionamento externo que absorvemos a verdadeira ética. A bondade inata de um cavalo ou cachorro, por exemplo, provém de sua natureza, embora sejam necessários certo treinamento e orientação, especialmente quando são jovens. A moralidade a e ética têm origem no interior do ser humano e são um reflexo de sua consciência. No entanto, são distorcidas ao entrar em contato com a sociedade. Essa distorção perturba a consciência (citta) e também o estado mental consciente (antahkarana) - que reside perto da Alma e recebe o mundo como uma unidade, não uma batalha pela sobrevivência em meio aos aspectos mais brutos da nossa natureza.

A ioga nos exercita a manter-nos longe de motivações egoístas e grosseiras e mostra como cumprir nossas responsabilidades. É como um eixo a partir do qual nos educamos para realizar uma transformação interna, trocando os prazeres comodistas pela emancipação, a servidão pelo mundo de liberdade do Eu, a evolução rumo ao poder do conhecimento pela involução rumo à sabedoria do coração e da Alma.

Esse esforço de se aprimorar é o início da verdadeira religiosidade e o fim da religião como seita ou um rígido padrão de crença. Espiritualidade não é encenar o papel de sermos sagrados, mas a paixão e o anseio internos de auto-realização e a necessidade de encontrar o derradeiro propósito da existência. 

Yama é cultivar o comedimento. Por meio dos princípios do yama, Patanjali mostrou como superar nossas fraquezas psicológicas e emocionais. Yama também significa "Deus da morte". Se não seguimos os princípios do yama, agimos deliberadamente como assassinos da Alma. Quando somos iniciantes, só podemos tentar controlar maus hábitos; porém, com o passar do tempo, os ditames do yama tornam-se impulsos do coração.

O primeiro preceito do yama é a não-agressão, a não-violência (ahimsa); o segundo é a verdade (satya). Apresento-os juntos porque eles demonstram que qualquer pétala aperfeiçoada da ioga modifica o todo. A ioga é uma só, esteja você fazendo a postura do triângulo (Trikonasana) ou dizendo a verdade. Gandhi, o grande homem do século XX, libertou a Índia e mudou o mundo graças a sua perfeição nas duas pétalas: a não-violência e a verdade. Sua não-violência desarmou o poder opressor dos britânicos e também a raiva inerente e a violência contida da população indiana subjugada. Ele conseguiu isso porque suas palavras e ações estavam calcadas na verdade. A verdade é de poder tremendo. Os vedas dizem que nada que não se baseie na verdade pode frutificar ou trazer bons resultados. A verdade é a Alma em comunicação com o estado consciente. Se este transmite a percepção à consciência e então converte tal percepção em ação, é como se nossos atos se tornassem divididos, porque não há interrupção ente o que a Alma vê e os atos que ela realiza.

Gandhi atingiu este ponto e comprovou sua magnífica eficácia. Mas, é claro, a maioria de nós luta num mundo de relatividade, de concessões, de auto-engano e sutil evasão. À medida que a prática da ioga avança e as aflições e os obstáculos a ela passam a ter menos efeito sobre nós, começamos a vislumbrar a glória da verdade. A ignomínia da violência, de fazer mal aos outros, é uma ofensa contra a Unidade fundamental e, portanto, um crime contra a verdade. Cabe observar, contudo, que a extrema austeridade de Gandhi, como seus jejuns prolongados, eram uma forma de violência (himsa) contra si mesmo, pela qual ele chamou a atenção do mundo para o que as pessoas estava fazendo umas as outras.

São muitos os homens e mulheres santos que vieram para nos lembrar que, apesar da nossa diversidade, compartilhamos a unidade. Ramanujacharya, que viveu entre os séculos X e XI e foi um grande devoto de Visnhu, convocou os seres humanos, a despeito das fronteiras de cor, raça, sexo ou casta, a experimentar a divindade, iniciando-os com o bija mantra: "Aum Namo Narayana". Essa "prece-semente", aparentemente simples, acabava com a divisão entre as pessoas ao torná-las conscientes de que todos têm a mesma relação com Deus. Ela significa simplesmente: "Abençoado seja o Senhor Narayana" (um dos nomes de Deus). Séculos depois, foi Mahatma Gandhi que uniu a Índia numa só raça humana ao praticar a verdade e a não-violência, as duas subpétalas do yama da ioga.

Não devemos usar a verdade como uma clava para agredir as outras pessoas. A moral não consiste em olhar para os outros e considerá-los inferiores a nós. A verdade precisa ser temperada com a amabilidade social. Somos todos culpados por elogiar alguém que está evidentemente orgulhoso de sua roupa nova. Se tivéssemos atingido a verdade absoluta, talvez não fizéssemos isso, mas, num mundo relativo, do qual somos observadores imperfeitos, às vezes fazemos concessões. Uma aluna minha de longa data, sem jamais mentir, sempre busca as qualidades positivas das pessoas que ela conhece e tenta ver o lado humano de seus defeitos. Essa compreensão se deve ao fato de ela saber que já teve muitos defeitos, razão por que compadece dos que ainda estão se esforçando. Assim, ela enfatiza o potencial positivo das pessoas, em vez de humilhá-las por suas capacidades negativas inerentes. Chame isso de olhar o lado luminoso, se preferir, mas seja como for, essa conduta nos ajuda a extrair o melhor dos outros. A verdade não é uma arma da qual se pode abusar, e a espada da verdade tem dois gumes, por isso é preciso ter cuidado. O exercício dos yamas, que são preceitos morais externos, não pode, portanto, exceder nossa cultura e nosso refinamento. Ou seja, se finjo ter uma moral maior ou mais elevada de que de fato sou capaz, então estou agindo com afetação, com hipocrisia.

Assim, cada estágio da vida, embora tenhamos nos empenhado o tempo todo em dizer a verdade, em não ser possessivos em relação à propriedade alheia, em não roubar, esses princípios morais adquirem significados mais profundos e mais sutis, que se revelam à medida que progredimos. Eles serão mais refinados em nosso interior. Assim, por exemplo, quando somos jovens, roubar pode significar furtar algo de uma loja. Quando somos mais velhos, devemos conter até mesmo comentários ásperos que possam pôr a perder a reputação de alguém, pois de destruímos a reputação de uma pessoa, estamos roubando-lhe algo. Portanto há diferentes níveis de sutileza; e só quando encontramos a nós mesmos é que de fato somos dignos de expressar os níveis superiores da moral. Não é algo que podemos forçar além das nossas capacidades. Temos de estar à altura deles.

Do mesmo modo, não podemos impor aos outros a nossa verdade - e devemos sempre ter certeza de que nossas ações não violentem os demais. Vejamos um exemplo mundano. Se paro de comer chocolate por um ano, é uma austeridade que pratico comigo mesmo, um rigor que pode fazer bem à minha saúde. Se obrigo toda a minha família a abandonar o chocolate por um ano, é uma violência que pratico contra eles, e o mais provável é que, em vez de harmonia, eu crie ressentimentos de divergências familiares, por mais benéfico que seja o efeito sobre sua saúde. Mais uma vez, exemplo é tudo, e quando o exemplo expressa a verdade, ele tem o poder de transformar os outros.

Não roubar, ou não se apropriar do que por direito pertence a outros (asteya),é o terceiro yama. Na infância, aprendemos a não pegar ou roubar os brinquedos de outras crianças, mas não roubar pode ter outras implicações. Acaso não roubamos quando consumimos mais do que nos cabe? Não é roubo quando uma pequena parte da população mundial consome a vasta maioria dos recursos do planeta? Como sugeri há pouco, há modos ainda mais sutis de privar uma pessoa do que é legitimamente dela - honra e reputação, por exemplo.

Antes de entrar no quarto yama, castidade, devo mencionar brevemente o quinto, que está associado ao terceiro (não roubar). O quinto yama é não cobiçar, ou seja, ter uma vida modesta (aparigrahah), viver sem excessos. As duas idéias aqui contidas são: primeiro, que o excesso de uma pessoa pode levar à carência de outras e, segundo, que o excesso em si é uma força que corrompe. Ele leva à servidão da sensualidade e ao desejo de expandir o ego por meio de posses - eu, eu e eu mediante o meu, meu, meu. Se é essa nossa atitude, a jornada interior não passa de uma farsa, desde o início. Isso não quer dizer que a criação da riqueza é em si um mal, mas simplesmente que não devemos entesourá-la sovinamente. A riqueza que não é redistribuída se estagna e nos envenena. Riqueza é energia, e a energia foi feita para circular. Veja seu carro. Quanta energia elétrica ele armazena na bateria? Não muita, apenas o suficiente para dar a partida de manhã e acender os faróis. Se o carro fica muito tempo na garagem, a bateria acaba e a energia se dissipa. Porém, quando o carro anda, ele gera muita energia, recarrega a bateria e obtém tudo que necessita para funcionar, incluindo o aquecedor, o ar-condicionado, o limpador do pára-brisa e rádio.

A energia precisa fluir, senão sua fonte se extingue. Quando somos cobiçosos ou avarentos, impedimos a energia de circular, de produzir mais energia; no fim, por transgredir uma lei natural, somos nós que ficamos mais pobres e envenenados por acumular as riquezas da vida.

Deixei para o fim o quarto yama, castidade ou celibato (brahmacarya), porque ele suscita reações fortes. Para a maioria de nós, brahmacarya significa simplesmente que, se você deseja ser uma pessoa espiritual, então deve tornar-se para sempre um celibatário. No entanto, visto que seria bom que o mundo inteiro quisesse se tornar espiritual, logo teríamos um planeta somente povoado por cães, gatos e vacas. Se havia alguma intenção em Deus, não creio que essa fosse uma delas.

Autocontrole sexual é outra coisa. Sempre desejei ter uma esposa e família. Também queria ser um iogue. Em toda a tradição indiana, não há nenhuma contradição entre essas coisas. Quando minha esposa estava viva, meu brahmacarya se expressava na fidelidade a ela. Depois de sua morte, o desejo desvaneceu, e meu brahmacarya foi o do celibato. Segui a verdade (satya) durante a primeira parte da minha vida e também durante a segunda. Como ambas estavam assentadas na verdade e na integridade, ambas deram frutos.

O amor sexual, como disse, pode ser o aprendizado para o amor universal. O que eu teria alcançado na vida sem o amor, o apoio e a companhia de Ramamani? Provavelmente não muito. Eu era casto, o que significa que me continha. Continha-me entre o quê? Entre as margens do rio da vida - de um lado, o dever ético e religioso (darma), de outro, a liberdade (mocsa).
Se a corrente da minha vida tivesse afagado qualquer uma das margens, minha incapacidade de me controlar - a chamada luxúria desenfreada - teria levado a que me perdesse da busca do Eu. Teria ofendido a verdade e a virtude tal como entendo. Minha consciência ferida teria obscurecido minha Alma.

Nem todos, contudo, se iniciam no caminho a partir do ponto de origem. Muitos principiantes ou neófitos no caminho da ioga não têm disciplina. A verdade é que não posso exigi-la deles, assim como não poderia colocá-los em Hanumanasana na primeira aula. Continuo orientando-os. Corrijo-os no ásana e tento despertar os princípios de yama e niyama nas posturas. Tento levá-los a uma prática mais elevada, mas isso não acontece de uma hora para outra. No fim, porém, eles acabam entendendo que a falta de autodisciplina, em qualquer área, é um desperdício de energia. Por exemplo: até mesmo jogar comida fora é uma ofensa à força vital do alimento. Comer demais, por outro lado, é uma ofensa à própria força vital. O comportamento sem ética, seja de que tipo for, não causará distúrbios ao iniciante, mas seu efeito no plano espiritual será extremamente nocivo. Se encaramos o sexo unicamente como uma questão moral, rebelamo-nos contra ele. Yama não consiste em invocar o oposto do que desejamos fazer, mas em cultivar a percepção correta, a fim de examinar os fatos e conseqüências reais do problema com que estamos lidando.

Yama é o cultivo do que é positivo em nós, não apenas a supressão do que julgamos ser seu oposto diabólico. Se assim considerássemos a falta de prática do yama, estaríamos fadados não a encorajar o bem, mas a ricochetar entre os extremos do vício e da virtude - e isso só nos causaria dor e não teria nenhum efeito evolutivo benéfico para o mundo. Cultive o que é positivo, renuncie ao que é negativo. Pouco a pouco, você chegará lá.

De acordo com Shakespeare, eu diria simplesmente que o amor é um investimento, e a luxúria, um desperdício. É isso que ele quer dizer. A luxúria leva ao isolamento e à solidão, a um deserto espiritual. Brahmacarya implica autocomedimento, a capacidade de se controlar, seja por respeito aos outros, seja para experimentar a totalidade no ásana. Não se abster da atividade sexual. É o controle ético de uma força natural poderosa. O grau de controle dependerá do grau de evolução do praticante. Castidade e fidelidade são conceitos fundamentais, e não devemos esquecer que a raiz de "celibato" em latim significa "ser solteiro", o que não implica imoralidade.

Pode-se aprender yama pela prática do ásana. Por exemplo, se você agride demais um dos lados do corpo, está matando (himsa) as células desse lado. Ao restaurar a enrgia do lado passivo, mais fraco, você aprende a equilibrar violência e não-violência. Quando a forma do ásana expressa a forma do eu, sem tensão, astúcia sem distorção, então você aprendeu a verdade (satya) no ásana. Esteja certo de que, se você quiser, poderá sair da aula levando consigo todas essas lições éticas e assim enriquecer a sua vida. Quando o praticante sente no ásana que sua inteligência está inundando todo o seu corpo através dos invólucros, ele experimenta uma totalidade autocontida, a integridade do ser. Ele sente que se elevou acima dos apegos externos. Essa é a qualidade do celibato em ação.

Mesmo as aflições (klesas) mais enraizadas podem ser dominadas por meio da observação no ásana. É o apego à vida (abhinivesa). Até as pessoas mais sábias são apegadas à vida, pois se trata de algo físico e instintivo. Mas no momento da morte é importante soltar-se para o que vem depois dela, seja lá o que for. Quando nos soltamos, liberamos também as impressões latentes (samskaras) desta vida e nos permitimos um começo limpo no que está por vir. A prática integrada do ásana traz a sabedoria que diminui a ambição da autopreservação. A sublimação de abhinivesa liberta o aspirante espiritual do obstáculo do medo. Dessa maneira, na hora da morte, mantemos a presença de espírito. Isso é útil. Não há pânico, não há fixação no passado, não há medo do futuro desconhecido. Gandhi, por exemplo, após ser atingido pelo tiro disparado por um fanático, manteve a presença de espírito de invocar continuamente o nome de Deus, Rama, Rama. Esse é o fim limpo e um novo começo.
O código do yama deve brotar do centro no nosso ser e irradiar para fora. Do contrario, não passa de uma miscelânea de maneirismos culturais.  

Texto do livro "Luz na Vida" de B.K.S. Iyengar.

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