sexta-feira, 20 de abril de 2012

Yoga e a Saúde Feminina




“Saúdo-vos, ó Deusa, vós que dissipais os grandes temores, eliminais as grandes dificuldades e tendes a essência da grande compaixão.” Devi-Upanishad (25)

Este sutra, encontrado no Devi-Upanishad, nos revela a idéia geral que se faz do feminino, energia acolhedora, restauradora, compreensiva e amorosa. A mulher alude à Devi (do sânscrito, resplandecente), o aspecto generoso de Deus. Canções e orações são oferecidas à Ela em todas as tradições religiosas, onde se espera que Ela, nossa mãe, nos conduza gentilmente pela mão, enquanto percorremos os caminhos mais obscuros do universo.

Porém, por trás de tudo isso, sabemos que nós, mulheres que aqui vivemos, estamos muito atrás destas mães divinas à quem constantemente recorremos. É preciso despender de muita atitude e energia para mantermo-nos firmes em nossos papéis, o que, muitas vezes, acaba por nos levar a um confronto com a nossa própria identidade.

O primeiro passo que podemos dar para que tenhamos uma relação mais amigável com nós mesmas é o cuidado com a saúde. A saúde da mulher é tal qual um livro aberto, mas é preciso entender seus sinais para poder compreendê-lo. Esses sinais são especialmente revelados durante o ciclo menstrual, período em que o corpo e a mente revelam seu estado atual sem reservas.
O Ayurveda, ramo medicinal do Yoga, afirma que num intervalo de 25 a 35 dias o corpo feminino entra num processo de limpeza, recolhendo e expelindo as toxinas (ama) que se acumularam no organismo desde seu último ciclo menstrual. Este ama pode advir da má alimentação (junk food e refeições irregulares), emoções reprimidas, focos de tensão ou sono irregular. Se, durante o período que separa uma menstruação da outra a mulher mantiver bons hábitos, o que se resume em horários regulares de repouso, refeições bem definidas, prática de exercícios físicos e bom trabalho emocional, seu organismo não terá dificuldade em recolher as poucas toxinas que nele se acumularam e expeli-las. No entanto, se os hábitos tomarem rumos contrários, o ciclo menstrual irá refletir em dores, mudanças psicológicas bruscas, fluxo intenso (menorragia) ou fluxo contido (amenorréia).

Cerca de 90% das mulheres apresentam desconfortos pré-menstruais de ordem variável, algo que abrange mais de 150 sintomas. Estes desconfortos tomam parte por conta do ritmo de vida anti-natural que temos adotado hoje em dia, levando-nos do extremo stress à extrema inércia em poucos instantes. Respeitar o bioritmo físico e mental é a chave para a boa gestão e compreensão de si mesma, bem como a inserção de hábitos diários que se mostrem de acordo com as nossas possibilidades.

Esta re-adequação ao Eu pode começar pelas atitudes mais simples do dia-a-dia, se apenas tomarmos consciência dos nossos atos. Evitar situações insatisfatórias para nós mesmas advém de um longo estudo do nosso próprio comportamento perante elas, o que nos permite obter um mapa detalhado sobre o nosso comportamento e a forma de conduzi-lo, a fim de evitar situações que não condizem com nossa capacidade de gestão.

A prática de asanas também deve sofrer adaptações, que serão listadas aqui. Por conta do mesmo princípio citado anteriormente, deve-se evitar praticar asanas no primeiro dia da atividade menstrual. Se a disposição ainda assim permanecer debilitada, deve-se iniciar a prática a partir do terceiro dia, ou não praticar durante este período. No entanto, existem asanas extremamente benéficos para os distúrbios causados pelo ciclo menstrual, assim como práticas meditativas que irão atuar diretamente nas glândulas responsáveis por este movimento.

É importante que a prática não provoque fadiga ou comprima os órgãos abdominais e reprodutores. Da mesma forma, deve-se concentrar em criar espaço entre a caixa torácica e o abdôme, otimizando assim o fluxo da corrente sanguínea e permitindo que o ama seja recolhido mais facilmente. Não se deve procurar aprofundar ou aperfeiçoar a prática de asanas, mas sim buscar o máximo relaxamento em cada postura.

Nenhuma postura invertida deve ser praticada durante a menstruação, pois, segundo o Ayurveda, estas posturas restringem e confundem o movimento natural de expulsão do apana vayu, ar vital responsável pela eliminação de resíduos do corpo. Invertidas praticadas fora deste período atuarão diretamente nas glândulas responsáveis pela atividade menstrual, sendo necessárias para a boa manutenção endócrina.

Torções devem ser evitadas ou não acentuadas, por conta do princípio de não-compressão dos órgãos abdominais citado acima. No entanto, estas mesmas torções são extremamente favoráveis no período pré e pós-menstrual, pois atua de forma a regularizar o fluxo menstrual posterior.

Posturas feitas em pé devem ser suavizadas ou evitadas, com exceção à prática de:
ardha chandrasana
que atua na abertura da região pélvica e otimiza a circulação e expulsão sanguínea. Da mesma forma, posturas que trabalham com a abertura das virilhas e região pélvica são especialmente benéficas, se praticadas sem tensão. Entre elas estão:
baddha konasana
 upavishta konasana
supta baddha konasana
prasarita padotanasana
supta padangustasana

Flexões e posturas que projetam o peito são especialmente úteis no controle das oscilações temperamentais experimentadas durante o período pré-menstrual, pois atuam de forma relaxante no sistema nervoso, diminuindo de forma significante a fadiga e as perturbações mentais que vierem a surgir.

A prática regular de asanas é extremamente importante para a regularização e boa gestão do ciclo menstrual. Ela atua diretamente no sistema endócrino, conferindo boa produção hormonal; no sistema nervoso, atenuando as nuances emocionais e psicológicas e na circulação sanguínea, facilitando o recolhimento e expulsão de toxinas.

Um ciclo menstrual regular é o reflexo de uma boa saúde, e constitui a chave para a compreensão do nosso corpo, e do que há além dele.

SPARROWE, Patricia. Yoga para a Saúde do Ciclo Menstrual. São Paulo: Pensamento, 2006.
LAD, Dr. Vasant. Ayurveda – A Ciência da Autocura. São Paulo: Ground, 1997.

sábado, 14 de abril de 2012

O impacto da meditação no tratamento do câncer



A meditação tem origem obscura. Entretanto, os mais antigos textos médicos conhecidos, escritos há cerca de 1000 anos antes de Cristo, referentes à medicina ayurvédica indiana, já incluíam a prática de meditação como um procedimento valioso para a manutenção e a recuperação da saúde. Nos últimos 35 anos, a meditação passou a ser crescentemente adotada no ocidente como método terapêutico complementar, o que despertou o interesse da comunidade científica, que já divulgou os resultados de suas pesquisas em mais de 1600 publicações. Atualmente, a prática de meditação é utilizada rotineiramente como terapia complementar em centenas de centros médicos, inclusive naqueles associados às mais prestigiosas universidades do mundo como Harvard e Oxford.

Mas o que é meditação? O fluxo constante e caótico de pensamentos em nossa mente impede que nos concentremos naqueles que são mais importantes, ou seja, compromete nossa atenção e concentração, além de causar intenso cansaço mental e gerar ansiedade e frustração, porque não conseguimos achar as soluções necessárias, já que novos pensamentos surgem continuadamente atropelando os anteriores. A consequente exaustão mental, que evolui para a exaustão física, associadas à ansiedade e ao sentimento de frustração, acabam por comprometer os sistemas de defesa do organismo e tornar o indivíduo suscetível a uma grande variedade de doenças. Esta sequência de eventos danosos à saúde pode ser revertida pela meditação. Meditar consiste em focalizar a mente, o que leva a um estado de relaxamento mental e físico que, por sua vez, facilita alcançar um estado de grande serenidade, que induz ao estado meditativo. Neste, perde-se a noção de tempo, espaço e corporeidade, a consciência se expande e advém um estado de profunda paz. Essas sensações de serenidade e paz, entre outras emoções positivas induzidas pela meditação, exercem impacto altamente benéfico sobre o sistema imunoneuroendócrino, capaz de concorrer, de maneira decisiva, para a manutenção e recuperação da saúde.

São várias as doenças em que a meditação exerce um efeito positivo nas pessoas, entre elas o câncer. Células mutantes, com potencialidade para se transformar em células cancerígenas, surgem diariamente em nosso organismo, mas são eliminadas por nossos mecanismos de defesa, principalmente aqueles associados ao sistema imunitário. As células imunitárias têm capacidade de detectar e destruir as células mutantes e, desta maneira, impedem o aparecimento do câncer. Além disso, mesmo após o estabelecimento do câncer e, eventualmente de metástases, as células tumorais continuam sendo monitoradas e podem ser eliminadas pelo sistema imunitário. Acontece que as emoções negativas, como ansiedade, tristeza, mágoa, ressentimento, culpa e medo, bloqueiam o sistema imunitário, tornando-nos suscetíveis a doenças, inclusive o câncer. A meditação tem a capacidade de transformar as emoções negativas em positivas, tornando as pessoas mais serenas, intuitivas, sensíveis, amorosas e felizes. Tais emoções positivas alimentam o sistema imunitário, que passa a exercer sua função protetora de maneira eficiente, evitando o adoecimento e mesmo fazendo reverter doenças já estabelecidas.

Este efeito, aparentemente milagroso, tem recebido o embasamento teórico e experimental da nova ciência da psiconeuroendocrinoimunologia, que estuda os efeitos das emoções sobre os sistemas de defesa do organismo. Parte da atividade benéfica da meditação em pessoas com câncer deve-se à redução do tônus simpático, associado à ansiedade, e aumento da atividade parassimpática, associada à tranqüilidade, além de aumento do hormônio melatonina, que apresenta atividades estimuladora do sistema imunitário, antitumoral e bloqueadora do efeito imunodepressor da ansiedade.

Por:
Eduardo Tostae, Médico, pesquisador e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, e
Juarez Castellar, Médico e doutorando do Programa de Ciências Médicas, Faculdade de Medicina, UnB

domingo, 1 de abril de 2012

Ciência comprova efeito da massagem‏

Pesquisadores do Canadá encontraram uma explicação científica em nível celular para a eficácia da massagem no alívio da dor e na recuperação muscular.


 A eficácia da massagem contra a dor tem agora base científica: os benefícios da técnica estão associados a ‘ligar’ e ‘desligar’ genes.

Massagistas agora poderão dizer, com base científica, por que a atividade que exercem funciona no alívio da dor e na recuperação muscular. E isso tem a ver com ‘ligar’ e ‘desligar’ genes, segundo estudo.
Parte dos profissionais de saúde vê a massagem com ceticismo – afinal, qual a base científica para os tais benefícios relatados? Porém, não faltam relatos sobre os benefícios e a eficácia da técnica em sua ação contra a dor.
Agora, veio a público o que parece ser a primeira explicação científica em nível celular para a massagem. E a história das razões do estudo – relatada pelo serviço noticiosoScienceNow (01/02/12) – começa quando Mark Tarnopolsky, da Universidade McMaster (Canadá), passou a se submeter a massagens por indicação médica, depois de acidente esportivo.

Veio a público o que parece ser a primeira explicação científica em nível celular para a massagem

O fato de as sessões trazerem alívio para a dor chamou a atenção do pesquisador. Haveria base celular para o que ele sentia? Tanopolsky, coincidentemente, trabalha com metabolismo celular.
O cientista reuniu colegas e decidiu investigar. Arrebanharam-se 11 jovens, submetidos a exercícios extenuantes. Dez minutos depois da prática esportiva (pedalar), uma das pernas foi submetida a massagem.
Os pesquisadores colheram amostras do quadríceps (músculo da parte anterior da coxa) das duas pernas em três ocasiões: antes do exercício, 10 minutos depois e 3h mais tarde.
Primeiramente, eles constataram o que já se sabia: depois do exercício, as células apresentam mais evidências de inflamação e de sinais de autorreparo dos danos do que antes.
A surpresa veio quando se analisaram as células do tecido massageado: elas tinham 30% a mais de genes reparadores envolvidos no processo de transformar nutrientes em energia, bem como 300% menos de proteínas que ‘ligam’ genes envolvidos na inflamação.
Simplificadamente: os genes reparadores estavam ‘ligados’ e os relacionados à inflamação ‘desligados’.
Quanto à crença de que a massagem difunde, para outras regiões, o ácido lático do músculo dolorido, a equipe não achou evidências – esse, até agora, era o argumento ‘científico’ mais usado para justificar os efeitos da massagem.
O estudo foi publicado on-line na revista Science Translational Medicine.

Cássio Leite Vieira

Ciência Hoje/ RJ
Texto originalmente publicado na CH 290 (março de 2012).